Carga trata-se de um filme de extrema importância e deve ser visto pelo maior número de pessoas.

Carga trata-se de um filme de extrema importância e deve ser visto pelo maior número de pessoas.

2018
Drama | 1h53min
de Bruno Gascon, com Michalina Olszanska, Vítor Norte, Rita Blanco, Sara Sampaio, Miguel Borges, Dmitry Bogomolov, Duarte Grilo e Ana Cristina de Oliveira


Chegou às salas de cinema, Carga, a primeira longa-metragem de Bruno Gascon – realizador que deu que falar lá fora com as suas curtas-metragens premiadas Boy (2014) e Vazio (2015), ambas com temáticas fortes que devem interessar o público pelas suas vertentes sociais. Gascon apresenta-se como um jovem realizador com pontos de vista assertivos e com temas marcantes que a sociedade não deve ignorar. A sua estreia nas longas-metragens é mais uma prova que o realizador tem algo importante a dizer e a mostrar, dedicando-se a 100% na mensagem que tanto quer transmitir.

Carga começa com uma contextualização que nos dá a conhecer a realidade que vai ser apresentada e, por consequência, o seu tema principal – o tráfico humano. Seguimos a história de Viktoriya (Michalina Olszanska), jovem russa à procura de uma vida melhor, que é apanhada numa rede de tráfico. A partir daqui, saltamos do ponto de vista das mulheres raptadas e abusadas para o mundo do crime, mais especificamente da máfia russa, que nos dá a conhecer o lado desumano dos humanos. Em simultâneo acompanhamos António (Vítor Norte), um velho camionista que vive frustrado, pois para sobreviver e sustentar a sua esposa Luísa (Rita Blanco) e a sua neta Mia (Beatriz Pires), trabalha para o chefe da máfia (Dmitry Bogomolov), sendo cúmplice dos seus crimes hediondos.

Além de uma história forte e realista, que conta um relato de sobrevivência, a forma como nos é apresentada dificilmente é esquecida. A meu ver, uma das melhores coisas que a sétima arte e todas as artes podem ter, é a função de consciencializar a sociedade. Carga faz isso eficazmente, faz-nos refletir sobre uma realidade tão próxima, mas que para muitos passa despercebida no dia-a-dia. É cada vez mais essencial colocarmo-nos no lugar do outro e essa mensagem fica bem explícita: “Podias ser tu”, tanto a vítima como o cúmplice. Que posição tomarias? Qual a posição que já tomas? No fundo, são estas as questões que o universo do filme consegue trazer, fazendo as pessoas saírem do seu próprio mundo e olharem para fora de si mesmas, para que este assunto deixe de ser invisível aos olhos de muitos.

O elenco é de luxo. Além da protagonista, Michalina Olszanska, considerada uma das mais talentosas atrizes polacas da sua geração – comprovado pela sua performance no filme - estão presentes outros nomes como: Vítor Norte e Rita Blanco, que como já é habitual têm uma representação excelente, assim como Duarte Grilo, Ana Cristina Oliveira, Rui Porto Nunes, Miguel Borges, Dmitry Bogomolov e Sara Sampaio, que conhecemos pela sua carreira de modelo. Aqui vemos a sua estreia como atriz, num registo completamente diferente, e devo dizer que foi uma bela aposta colocar Sara no grande ecrã.

A fotografia de JP Caldeano é pensada ao pormenor, tornando os planos extremamente interessantes e fazendo-nos estar próximos das personagens e das suas emoções. A banda sonora de Milton Nuñez Moura, Thibaut Vuillermet, Filipe Goulart, Matt Cohen e Nick Chuba também é um fator positivo que contribui para a carga dramática da obra.

As cenas são carregadas de sentido, mesmo que por vezes, não tenham diálogo. Basta uma expressão, um gesto, um olhar, um grito para entendermos o que está em causa. Existem cenas bastante fortes e perturbadoras, que podem ferir suscetibilidades, mas o filme escolhe mostrá-las de uma forma original e peculiar. Mas é isso que é suposto, não podemos continuar a ignorar, fechar os olhos e fingir que coisas más não acontecem. Precisamos de vê-las, sentir que podíamos ser nós a passar pelo mesmo, perceber que não é certo e que ninguém merece passar por isso. “Não devemos fazer aos outros aquilo que não gostamos que nos façam a nós”, tal como diz a personagem Luísa a certo momento do filme.

Toda a equipa envolvida no projeto está de parabéns. Percebe-se que a intenção é mesmo a de passar a mensagem, lutar contra esta problemática e não apenas criar mais um filme cheio de elenco conhecido, por vezes até com pessoas inexperientes como youtubers, só mesmo para arrecadar mais vendas nas bilheteiras. Carga trata-se de um filme de extrema importância e deve ser visto pelo maior número de pessoas. É um filme que acredito que ainda vai dar muito que falar, não só em Portugal, mas no mundo inteiro e é isso que importa – a abertura do debate e das mentes alienadas.

Devido à densidade da história retratada em Carga, a duração do filme parece um pouco extensa, porque é efetivamente duro ver certas realidades. Ainda assim, o ritmo mantém-se coeso do início ao fim, fazendo com que a audiência nunca perca interesse. É tenso, realista e duro. Carga consciencializa para o problema atual do tráfico humano, um dos negócios mais rentáveis do mundo, que leva a que milhares de pessoas sejam escravizadas todos os anos. É preciso identificar o problema e ter consciência das suas consequências. Mais que nunca é urgente abrir os olhos para esta situação, tomar uma posição e fazer algo. Começa por ver o filme, uma das melhores experiências deste ano e um bom caminho a seguir no cinema português.


por Rafaela Teixeira