É caracterizado por uma cinematografia, uma realização e uma direção de arte impecáveis que resultam.

É caracterizado por uma cinematografia, uma realização e uma direção de arte impecáveis que resultam.

1991
Comédia, Crime | 1h39min
de Marc Caro e Jean-Pierre Jeunet, com Marie-Laure Dougnac, Dominique Pinon, Pascal Benezech e Jean-Claude Dreyfus


Num ano em que Terminator 2: Judgment Day (1991) consolidou James Cameron como um realizador de topo, viu os irmãos Coen subirem cada vez mais a sua fasquia com Barton Fink (1991), e deu a Jonathan Demme seguramente a sua primeira obra-prima, The Silence of the Lambs (1991), os franceses Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro mostraram-se ao mundo pela primeira vez com o seu bizarro mas competente Delicatessen, tendo-se responsabilizado, para além da realização, pelo argumento (juntamente com Gilles Adrien), pela direção de arte (apenas Caro) e pela mise en scène (apenas Jeunet).

Lançado em França em abril de 1991, Delicatessen é o primeiro filme dos desconhecidos e novatos Marc Caro e Jean-Pierre Jeunet, este sendo o realizador que viria a carimbar a saga Alien com o quarto filme da série, Alien: Resurrection (1997), e que viria a receber bastante aclamação por obra e graça da sua comédia romântica francesa Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain (2001). No entanto, esta colaboração só duraria até o lançamento em 1995 de The City of Lost Children (apenas o segundo filme dos cineastas), altura em que ambos divergiram para diferentes caminhos: Jean-Pierre Jeunet para a tal carreira bem-sucedida a solo enquanto realizador e Marc Caro para uma carreira em ilustração e computação gráfica.

A história deste filme passa-se num mundo pós-apocalíptico, no qual a comida escasseia e o grão é usado como moeda de troca. Nele jaz um edifício residencial degradado e sombrio, ocupado não só pelos inquilinos, mas também pelo próprio senhorio, Clapet (protagonizado por Jean-Claude Dreyfus): um açougueiro que publicita oportunidades de emprego para o edifício num jornal, com o objetivo de recolher a carne dos pretendentes para alimentar os ocupantes dos apartamentos. Após a “saída” do último trabalhador, eis que surge um palhaço de circo desempregado de nome Louison (Dominique Pinon) que, para além de ter aceitado o lugar vago do prédio, começa um romance com a filha do carniceiro, Julie Clapet (Marie-Laure Dougnac).

Um elemento que se repara logo quando se começa a ver o filme é a sua cinematografia distintiva, responsável pela criação de uma textura suja e grotesca, em linha com a era pós-apocalíptica da narrativa. Esta é estabelecida logo no primeiro plano, através do contraste entre o céu amarelo e o espaço urbano (e, assim, o edifício) preto, perpetuando-se a partir daqui um ambiente único marcado pelo uso bastante vivo e expressivo do amarelo, do vermelho, e do verde, complementada pela escolha omnipresente de uma objetiva grande-angular e pelo uso constante de ângulos baixos e altos. Todas estas decisões contribuíram para a criação de um clima bastante imundo, feio, e estilizado, fazendo lembrar as escolhas de mise en scène dos filmes do Expressionismo Alemão do início do século XX.

Outro fator que complementa o estilo visual do filme é o conjunto de personagens: há uma mulher em estado de delírio, pronta a se suicidar; há um homem que vive com sapos e caracóis; e há um grupo de vegetarianos rebeldes que são chamados pela filha do talhante para salvar o protagonista das pretensões canibalescas dos inquilinos. O talhante é quem lidera as matanças das vítimas, protagonizado de forma bastante competente por um Jean-Claude Dreyfus, que consegue transmitir no ecrã uma verdadeira ameaça e um verdadeiro carniceiro (ajudado também pela cinematografia expressionista). Apesar do resto das personagens estarem também bem, é este efetivamente a estrela do filme.

Para além de tudo isto, há que também realçar o design sonoro da longa-metragem. Este revela-se muito importante para o caráter cómico do filme: risos são criados com base no som que, em conjunto com a comédia visual que o filme também carrega, acaba por embrulhar a obra num género híbrido que mistura o cinema de crime com a comédia slapstick, contribuindo ainda mais para o distanciamento do filme em relação ao resto do cinema.

Em suma, para dois cineastas que nunca tinham lançado uma longa-metragem, Delicatessen é, apesar de exigir bastante atenção da parte do espetador para se poder perceber o que se está a passar no ecrã, sem dúvida uma estreia do qual os cineastas franceses se devem orgulhar. Caracterizada por uma cinematografia, uma realização, e uma direção de arte impecáveis que resultam, em última análise, numa mise en scène singular e sórdida, por um humor que faz seguramente rir e por um argumento que oferece uma narrativa única e deliciosa, Delicatessen é indubitavelmente um filme fundamental para quem quer explorar mais o cinema francês e as influências que o cinema passado tiveram, e continuam a ter, sobre o cinema contemporâneo.


por André Azevedo