Cada vez mais vemos os anti-heróis a serem adorados. O que esse fator diz do público?

Cada vez mais vemos os anti-heróis a serem adorados. O que esse fator diz do público?

2018
Crime, Drama, Thriller | 1h
de Greg Berlanti, Sera Gamble, com Penn Badgley, Elizabeth Lail, Luca Padovan, Zach Cherry e Nicole Kang


You, ou em português Tu, é uma série originalmente produzida pelo Lifetime, mas cujos direitos passaram recentemente para a Netflix. Inspirada no livro de Caroline Kepnes, You criada por Greg Berlanti e Sera Gamble conta com 10 episódios nesta primeira temporada e tem já prevista a próxima.

Joe (Penn Badgley), gerente de uma livraria, é o nosso protagonista. É precisamente no seu local de trabalho que conhece Beck (Elizabeth Lail), uma jovem aspirante escritora. Desde o primeiro olhar e troca de palavras, Joe começa a desenvolver um interesse romântico por ela. No entanto, segundo o próprio, é necessário saber primeiramente se é “seguro ir por esse caminho” – torna-se num stalker não só das redes socias, mas também da vida real, sem que Beck desconfie.

Com o tempo, sabendo e prevendo tudo o que Beck faz e pensa, Joe sente-se preparado para se aproximar e fazer com que ela se apaixone por ele. O seu desejo é melhorar a vida da jovem que segundo ele, se encontra num caos – além de não ser amada da forma certa, tem amizades tóxicas a começar pela sua melhor amiga Peach (Shay Mitchell). Será que Joe consegue o que quer? Vai descobrir.

Conhecemos esta história, sobretudo através da narração em voz off de Joe - temos acesso aos seus pensamentos, o que desde logo, nos prende à narrativa de forma única. São também utilizados flashbacks em vários momentos, o que nos permite conhecer melhor as personagens e criar empatia.

Foram vários os fatores que me fizeram viciar nesta série. A começar pelo elenco que entrega atuações muito credíveis. Penn é quem mais se destaca, pois Joe é uma personagem complexa e as suas expressões faciais são fundamentais na história. Contudo, devo admitir que adorei rever a Shay de Pretty Little Liars (2010-2017) que entrega também uma performance ótima.

As reflexões permitidas pela série – o que fazias por amor? Amor ou obsessão? Justificável ou condenável? Amizades verdadeiras ou tóxicas? - e a crítica que faz ao modo como usamos as redes sociais atualmente, enriquecem-na num mundo em que nos apaixonamos pela imagem, pela aparência e não pela verdade, pela essência. A sociedade normaliza a ideia de amor de um modo que levado ao extremo torna-se doença. Quem nunca ouviu que por amor devemos fazer tudo? Joe é produto desta mentalidade.

Além do argumento cativante, a edição é bem feita e mostra-nos belos planos da cidade de Nova Iorque. Além disso, a série também recorre às cores quentes e frias, à luz e à escuridão. Isto não só porque o protagonista tem esses dois lados, mas também para distinguir as linhas temporais. Os episódios têm um ritmo ideal para fazer uma maratona.

Contudo, não é tudo perfeito. A começar pela possibilidade de alguém antissocial e sociopata ser romantizado. Isto ocorre, porque o ponto de vista que temos é o de Joe que tem um lado humano e manipulador. Vemos isso em You, mas também por exemplo, na série Dexter (2006-2013). Cada vez mais vemos os anti-heróis a serem adorados. O que esse fator diz do público? É algo a refletir. Além disso, algumas personagens secundárias são tratadas superficialmente.

You é surpreendente e viciante. Vi a temporada duas vezes e estou ansiosamente à espera da segunda - o cliffhanger utilizado no final da temporada reforça a curiosidade. O mesmo acontece ao longo dos episódios que por estarmos tão dentro da história, parece que estamos presentes em mais um dia das personagens e é cativante descobrir as suas camadas. A série faz um excelente trabalho, brincando com a curiosidade, a emoção e a moral. 


por Rafaela Teixeira