Cada episódio é uma viagem sensorial que culmina, muitas vezes, num final inesperado

Cada episódio é uma viagem sensorial que culmina, muitas vezes, num final inesperado

2019
Animação, Comédia, Fantasia
de Tim Miller, com Mary Elizabeth Winstead, Topher Grace, Gary Cole, Samira Wiley, Stefan Kapi?i?, Nolan North, Scott Whyte


Criada por Tim Miller e produzida por David Fincher, a série animada antológica Love, Death & Robots é uma das apostas mais recentes da Netflix. Servindo-se de várias short stories dos mais variados autores para dar forma aos seus dezoito episódios, amor, morte e robôs são apenas o começo. O sucesso, tanto crítico como comercial, de Love, Death & Robots prova, mais uma vez, que existe espaço para animações voltadas para o público adulto.

Love, Death & Robots é uma antologia, ou seja, cada episódio narra uma história diferente, sendo que todos os episódios estão unidos por um contexto comum. Além de dezoito narrativas e géneros diferentes, a série também conta com dezoito estilos de animação distintos. Desde animação foto-realista até animação minimalista – quase rudimentar –, passando ainda pelo 2D clássico e estilo oriental, todos os episódios são primorosamente animados. Ao longo da série, são abordados temas como a natureza humana, realidades alternativas, perceção da realidade, política, violência, entre outros.

Um dos pontos fortes da série, pelo menos para mim, é o facto de ser uma antologia. Um dos grandes problemas – e, ao mesmo tempo, uma das grandes virtudes – das séries são as suas narrativas muito extensas, que exigem um grande investimento do espectador. Com antologias isso não acontece. Por serem episódios que funcionam de forma individual, podemos escolher ver um, dois, cinco ou todos pela ordem que quisermos e conseguimos desfrutar da mesma forma, sendo que a única coisa a ligar os episódios é o contexto comum. Para pessoas que preferem filmes a séries (como é o meu caso), estas narrativas mais curtas e condensadas em episódios avulsos são perfeitas.

Cada realizador traz o seu toque e visão pessoal a cada episódio, e cada estúdio de animação faz um trabalho excelente a dar vida às narrativas baseadas em contos de várias origens. Em termos visuais, é uma obra-prima. Em termos narrativos, embora também seja muito bem conseguido, algumas histórias deixam um pouco a desejar. Algumas narrativas são bastante concretas e diretas, outras são mais abstratas e metafóricas. Grande parte dos episódios opta por recorrer a finais com plot twist. Apesar de funcionar em grande parte das histórias, outras parecem demasiado superficiais e subdesenvolvidas para conseguir fazer funcionar um final desse tipo.

É importante frisar que se trata de uma série para adultos. Muitos dos episódios estão repletos de violência gráfica, nudez e muitos palavrões. Pode argumentar-se que alguma da nudez e violência é desnecessária, mas a irreverência das narrativas aliada à proposta principal da série de fazer uma animação exclusivamente para adultos justifica bem as cenas mais gráficas – nem a violência nem a nudez chegam a ser gratuitas.

Alguns episódios podem tornar-se redundantes devido a narrativas recorrentes ou estilos de animação parecidos. É difícil dizer concretamente quais dos episódios são redundantes, pois depende totalmente da ordem em que são vistos. Por exemplo, pelo menos três episódios utilizam uma técnica de animação foto-realista muito parecida e, embora as narrativas difiram, a utilização de uma técnica parecida pode tornar alguns episódios menos interessantes. No entanto, não é nada que constitua um problema grave.

A escrita, no geral, é bastante engenhosa. A maioria dos episódios são bem estruturados e é feito um excelente trabalho de condensação narrativa. No entanto, existem episódios que parecem, de facto, um pouco apressados e chegam até a transmitir a sensação de obra inacabada. Além disso, alguns episódios deixam um pouco a desejar no que diz respeito aos diálogos.

Love, Death & Robots prima pela inovação visual, e pela engenhosidade e irreverência das suas narrativas. Devido ao facto de se tratar de uma antologia, nunca se torna cansativa ou aborrecida. Cada episódio é uma viagem sensorial que culmina, muitas vezes, num final inesperado. Mesmo com alguns episódios menos conseguidos e inconsistências de ritmo, consegue prender a atenção do espectador através de narrativas bem contadas. Até quem não gosta de séries deveria dar uma oportunidade a estas histórias sobre amor, morte e robôs.


por Filipe Lourenço