Blindspotting traz consigo uma história racial e emotiva que já foi vista muitas vezes mas consegue reestruturá-la de uma maneira mais profunda e eficaz.

Blindspotting traz consigo uma história racial e emotiva que já foi vista muitas vezes mas consegue reestruturá-la de uma maneira mais profunda e eficaz.

2018
Comédia, Crime, Drama | 1h35min
de Carlos López Estrada, com Daveed Diggs, Rafael Casal, Janina Gavankar, Jasmine Cephas Jones e Ethan Embry


Os mais atentos lembrar-se-ão da crítica em que apelei a que não se tivesse medo de sair à rua e atirar ideias ao ar, de as colocar em tela seja de que maneira for. E é precisamente com esse background que nos chega Blindspotting, de Carlos López Estrada.

Rafael Casal e Daveed Diggs são dois amigos que ao longo da sua amizade já criaram vários projetos juntos, como é exemplo a mini-série The Away Team (2014). Este ano chegam à nossa tela em Blindspotting, uma longa-metragem que ambos escreveram, produziram e protagonizaram. Apostando num realizador conhecido pela criação de videoclips, o filme retrata a vida de Collin (Daveed Diggs), um negro que nos seus últimos três dias de liberdade condicional não só assiste à morte de outro negro por um polícia branco, como tem de (re)avaliar a sua relação com o seu melhor amigo branco e bastante volátil, Miles (Rafael Casal).

Blindspotting traz consigo uma história racial e emotiva que já foi vista muitas vezes mas consegue reestruturá-la de uma maneira mais profunda e eficaz. Collin é em vários momentos confrontado com a questão racial e olhado como o ‘culpado’ de momentos em que não se evolveu. A juntar a isso, restando-lhe apenas 72 horas para o final da sua condicional, assiste a algo que o atormentará durante toda a história.

O grande problema do filme é o seu ritmo. Ou, melhor dizendo, a quebra de ritmo que tem desde metade do segundo ato até à entrada do clímax. Oscilando entra a comédia e o drama, Blindspotting parece esquecer o seu conceito em determinados momentos e facilmente desconectada grande parte da audiência. O que é pena, uma vez que a mensagem que o filme tenta (e, ainda assim, consegue) passar é muito atual e muito pertinente.

Tecnicamente é onde o filme mais facilmente brilha. A realização de Carlos López Estrada é o ponto forte de toda a longa, com pormenores totalmente deliciosos e refrescantes para o cinema atual. Muito por vir de videoclips, Estrada transitou, de certa forma, a ideia do ‘vale-tudo’ para o cinema e evita repetir-se seja numa cena intensa ou numa mais compassada. A fotografia de Robby Baumgartner proporciona-me uma sensação agridoce uma vez que é bastante inconstante ao longo do filme. Facilmente passa de colorida e composta a bassa e totalmente flat, e isso desilude.

As performances de Casal ou Diggs (ou do restante elenco) não são memoráveis e estão muito distantes de uma qualidade aceitável, mas ambos acabam por ter um sólido background das suas personagens onde se agarrar e as suas interpretações não são de todo as piores do ano.

Blindspotting foca-se numa mensagem muito atual e muito bem realizado por Carlos López Estrada mas acaba por pecar em demasia com uma quebra estrondosa de ritmo que pode facilmente desligar a sua audiência.


por Pedro Horta