Bird Box entrega-nos uma proposta extremamente interessante, porém será que a execução do guião faz jus à expectativa que criámos em torno da sua premissa?

Bird Box entrega-nos uma proposta extremamente interessante, porém será que a execução do guião faz jus à expectativa que criámos em torno da sua premissa?

2018
Drama, Horror, Sci-Fi | 2h4min
de Susanne Bier, com Sandra Bullock, Trevante Rhodes, John Malkovich, Sarah Paulson e Jacki Weaver


Baseado numa obra literária da autoria de Josh Malerman, Bird Box é uma adaptação assinada por Susanne Bier, a mesma realizadora de Things We Lost in the Fire (2007) e Serena (2014). Conta com Sandra Bullock, Trevante Rhodes e John Malkovich nos principais papéis de um enredo promissor, que quebrou recordes de audiências na plataforma de streaming Netflix.

 

Este thriller pós-apocalíptico apresenta-nos um grupo de humanos que unem forças para sobreviverem perante uma perigosa entidade, que os leva a cometer suicídio se olharem diretamente para ela. A única solução para escaparem a um trágico destino, passa por evitarem estabelecer contacto direto com o mundo exterior e caso o façam, têm de manter sempre os olhos fechados, de forma a não observarem a temível entidade. Assume-se como uma premissa atrativa, que nos leva à invocação de obras totalmente semelhantes, como A Quiet Place (2018), na qual uma família não pode provocar qualquer ruído para não ser detetada por um perigoso bando de criaturas alienígenas, ou até mesmo Hush (2016), um home invasion, que apresenta o pesadelo de uma mulher surda e muda ao tentar escapar de um sádico serial killer. Apesar de possuírem histórias diferentes, todas lidam com o impedimento dos protagonistas não poderem falar, ouvir ou ver, caraterísticas tão importantes e intrínsecas no ser-humano.

 

Bird Box entrega-nos uma proposta extremamente interessante, porém será que a execução do guião faz jus à expectativa que criámos em torno da sua premissa? A resposta é “nem por isso”. A ação inicia-se in media res, mas logo depois recuamos no tempo para entendermos a génese da catástrofe.

 

Um dos maiores pontos negativos concentra-se nas partes que envolvem o grupo de sobreviventes, estas mantêm os mesmos clichés e não acrescentam nada de novo, além do grupo ser semelhante, em base, a outros que vimos e revimos em inúmeras histórias do género. Outro ponto negativo é a falta de ambição que a produção tem em implementar críticas sociais que se demonstrem fortes e ácidas. O conceito, se fosse bem explorado, poderia colocar-nos perante debates ou reflexões filosóficas, um pouco como Blindness (2008) o fez. Outra pequena falha, que devo enfatizar, sustenta-se na preguiça de responder com transparência a algumas questões levantadas durante o progresso da trama. Entretanto, a maioria dos defeitos do argumento são salvos pela edição, esta fornece um bom ritmo e assume-se apta para manter o interesse do espectador até ao seu desfecho.

 

As interpretações não são brilhantes, todos vimos a Sandra Bullock em atuações superiores, o John Malkovich limita-se a desempenhar um papel bidimensional de um personagem irritante e a talentosa Sarah Paulson acaba por ser precocemente descartada. Uma premissa deste género pede um bom elenco e acima de tudo, pede personagens com um grau superior de complexidade.

 

Relativamente a outros aspetos técnicos, Bird Box é de extremos. O responsável pela cinematografia, Salvatore Totino, apresenta-nos uma palete de cores belíssima, à base de tons frios e crus, nas cenas situadas num rio. Mas em outros momentos, deparámo-nos com uma fotografia medíocre e enquadramentos duvidosos – geralmente nas cenas filmadas em interiores- que nos questionam se estamos a assistir a uma produção com o selo de qualidade da Netflix ou alguma série dramática medíocre da CW. Contudo, a edição de som está muito boa, assisti com auriculares e posso assumir que excedeu as minhas expectativas, principalmente nas cenas mais intensas.


Bird Box não é mau, na realidade está longe de o ser, mas também está longe de ser fenomenal. É agradável, ideal para satisfazer a maioria do público. Peca essencialmente por tentar contar-nos uma história aparentemente diferente, mas que na realidade, foi vista e revista em dezenas de títulos semelhantes e comete o erro de não se preocupar em fechar alguns plot holes. Como também, nos consegue agradar através de uma proposta promissora e pelo facto de possuir um bom ritmo, que nos agarra até ao seu final.


por Pedro Quintão