As personagens estão bem caracterizadas e apresentam um design único e original em cenários deslumbrantes.

As personagens estão bem caracterizadas e apresentam um design único e original em cenários deslumbrantes.

2005
Animação, Drama, Família | 1h17min
de Tim Burton e Mike Johnson, com Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Emily Watson, Tracey Ullman E Paul Whitehouse


Em pleno mês de Halloween resolvi escrever sobre uma animação adulta, de um dos meus realizadores favoritos. Refiro-me a Corpse Bride, de Tim Burton (e Mike Johnson) - nomeada para o Óscar de Melhor Animação em 2006.

O enredo é baseado num conto russo do século XIX. A história satiriza e retrata a artificialidade dos casamentos, que não passavam de meros contratos, e um amor improvável entre dois jovens, destinados a casar a mando das suas famílias. Victor (Johnny Depp) é filho de Nell e William Van Dort (Tracey Ullman e Paul Whitehouse), ricos peixeiros que querem prestígio. Já Victoria (Emily Watson) é filha de Maudeline e Finnie (Joanna Lumley e Albert Finney), pobres aristocratas que querem enriquecer. As duas famílias depositam grandes esperanças neste casamento e no começo do filme vemos o dia do ensaio – Victor não consegue dizer sem falhas os seus votos, o que o leva a ir para a floresta treiná-los. Neste contexto, acaba acidentalmente casado com uma noiva cadáver e é levado para o mundo dos mortos.

Burton, influenciado pela literatura gótica e pelo expressionismo alemão, é conhecido pelo seu fascínio pelo sombrio, pelos mortos, pelo contraste entre a luz e escuridão. A linguagem que utiliza é muito própria e distingue-se, seja através da história e dos personagens ou dos ambientes e temas. Além disso, é habitual nas suas longas, uma reflexão sobre o lado negativo dos seres humanos – no caso em análise, temos a crítica à ganância das famílias que estão dispostas a entregar o destino dos seus filhos para que com isso possam beneficiar.

As personagens estão bem caracterizadas e apresentam um design único e original em cenários deslumbrantes, cheios de detalhes divertidos milimetricamente pensados. Burton contrasta brilhantemente os ambientes e as cores do mundo dos vivos com o mundo dos mortos, sendo curiosamente este último mais colorido e animado que o primeiro. A técnica utIilizada é o Stop Motion, que é considerada pelo realizador como a pura essência do cinema, traz ao ecrã incríveis movimentos e expressões dos personagens.

Os planos de câmara e a edição criam um visual agradável e cativante, capaz de trazer emoção a várias cenas – a cena em que Victor se encontra sozinho, introspetivo na casa da sua futura esposa a tocar piano, é a meu ver, uma das mais belas do filme.

A banda sonora também ganha destaque, sobretudo nos momentos em que adquire uma função essencial na narrativa, completando as mensagens do filme.

A história podia ser mais ousada e menos previsível. O desfecho é simples e direto como se a resolução não fosse complexa num filme que todo ele o é - só pelo facto de nos transportar para um ambiente fantástico, absurdo e cheio de humor negro.

Corpse Bride é fascinante e demonstra a força da imaginação. É composto de bons momentos, capazes de nos fazerem sentir e refletir. Se ainda não viste, aconselho-te a fazê-lo, e de preferência acompanhado por doces da época. 


por Rafaela Teixeira