As emoções são dispostas de forma subtil e profunda, numa simplicidade acolhedora.

As emoções são dispostas de forma subtil e profunda, numa simplicidade acolhedora.

2016
Drama | 1h23min
de Hope Dickson Leach, com Ellie Kendrick, David Troughton, Jack Holden e Joe Blakemore.


É no rescaldo das cheias de 2014 em Somerset que a realizadora e argumentista Hope Dickson Leach encontra terra fértil para a sua estreia nas salas de cinema, depois de prometer com a sua última curta-metragem: Morning Echo (2010). Interessada no estudo da angústia e desalento, a realizadora demonstra com The Levelling uma tremenda capacidade em preencher cada imagem com textura e significado, contando assim uma história perspicaz que é tão absorvente como comovente.

A morte do seu irmão é a razão do regresso da quase veterinária e vegetariana Clover Catto (Ellie Kendrick) à quinta de gado leiteiro da família. Sentimos a tristeza transformar-se em raiva quando lhe oferecem ajuda e ela responde "Podes fazer com que tenha sido o meu pai em vez do meu irmão?", pai esse que não vira à anos e que trata pelo seu nome de batismo, Aubrey (David Troughton). Ele tem vivido numa caravana desde que a "maldita companhia de seguros" declinou pagar pelos estragos das cheias, e está claramente em negação no que diz respeito ao "estúpido acidente" que diz ter sido o suicídio do filho, no clímax de uma festa.

Restos malditos como ossos no barbecue, manchas de sangue nas paredes e lixo no chão ainda assombram a quinta. Cenário de destroços que reflete as falhas de comunicação da família, cujas conversas são absorvidas por sentimentos de ansiedade e culpa. Dickson Leach carrega o espaço entre os diálogos com remorso, o que torna cenas como a que os atores protagonizam no sótão hipnotizantes. O argumento cria uma simbiose entre elementos pessoais, económicos e regionais, resultando numa narrativa rica e abrangente.

Troughton deixa uma tremenda impressão no papel de um homem em conflito consigo próprio, enquanto Kendrick, mais conhecida pela sua parte na série Game of Thrones (2011-), consegue uma performance reveladora, muito sentida e repleta de nuances. Ambos os atores conferem realismo e sinceridade a este drama familiar. Créditos também para a realizadora, que triunfa em todas as vertentes deste filme.

A sua equipa de trabalho não lhe fica atrás: a diretora de fotografia Nanu Segal explora as paisagens rurais com brilhantismo, intercaladas com imagens oníricas de uma lebre a lutar por manter a sua cabeça acima da linha da água. No departamento de som, o design de Ben Baird é preciso e tanto os sons do ambiente como dos animais misturam-se de forma enriquecedora. A composição de Hutch Demouilpied é invocada esporadicamente mas ajuda a estabelecer a atmosfera com grande pertinência.

Dickson Leach cita Bruno Dumont e Kelly Reichardt como algumas das suas inspirações e o estilo íntimo e bucólico confirma-o. Tátil e honesto, The Levelling é um dos melhores filmes britânicos da memória recente. As emoções são dispostas de forma subtil e profunda, numa simplicidade acolhedora. Está descoberta uma nova voz no cinema, aproveitem.


por Bernardo Freire