Inscreve-te e tem vantagens!

Dolor y gloria(2019)

Há um mês | Drama, | 1h54min

de Pedro Almodóvar, com Antonio Banderas, Asier Etxeandia, Leonardo Sbaraglia, Nora Navas e Penélope Cruz


Histórias sobre realizadores estagnados a refletir sobre a vida e a sua arte são atualmente um carimbo no cinema. Basta recordar a genialidade ambígua que é o  (1963) de Federico Fellini ou até mesmo Stardust Memories (1980), de Woody Allen. Filmes que são complexos por natureza e cujo contexto e consciência devem ser analisados através do conhecimento de que estamos perante uma obra de autorreflexão. É com esta informação que Dolor y gloria tem o devido sabor.

Desta feita a jornada existencial é percorrida pelo realizador e argumentista mais amado de Espanha: Pedro Almodóvar. Com mais de 4 décadas de carreira, o cineasta propõe ao ator Antonio Banderas, com o qual colabora pela oitava vez, que represente o seu alter ego. Uma versão cinematográfica do próprio, como um meio para meditar, honrar e progredir os seus esforços criativos.

Banderas é Salvador Mallo, um realizador na fase descendente da sua carreira que enfrenta tantas dores nos ossos como enxaquecas. Debilitado e sob o efeito de drogas e medicações, Mallo começa a recordar inconscientemente o seu passado, tendo como forte referência a sua mãe (Penélope Cruz, quando nova e Julieta Serrano em idade avançada). Por entre os pensamentos, é deparado com amores e quezílias antigas, que terá de confrontar para repor a confiança naquilo que é mais importante para ele - Filmar.

Apesar de não ser totalmente autobiográfico, a narrativa transporta um sentimento melancólico e saudosista. Não só Almodóvar retoma algumas das suas marcas, tais como personagens torturadas, a importância da figura materna e uma palete de cores vibrante, como guia Banderas para a atuação da sua carreira. Aqui abandona por completo o arquétipo do herói pelo qual ficou conhecido com filmes como Desperado (1995)  ou The Mask of Zorro (1998) e abraça uma personagem que exige um registo maduro e diversas nuances. É um deleite vê-lo a corresponder a este nível.

Mas não é apenas o protagonista que brilha. Todo o elenco secundário, desde Asier Etxeandia, que representa um ator no filme, até Penélope Cruz, que encarna a jovem mãe nas memórias do realizador, acrescenta sempre o seu talento às cenas e habita um cenário que está também ele todo pensado ao pormenor. É notório o contraste entre a vivacidade da direção de arte e do guarda-roupa em contraposição à depressão da personagem central. Tanto objetos como pessoas influenciam a sua eventual recuperação.

Dolor y gloria é um filme que respira o cinema dos seus criadores, e como tal retira mais proveito quem estiver familiarizado com o seu trabalho. Não obstante, é uma narrativa acessível cujo drama deriva de dores introspetivas e de reflexões borbulhosas que podem perfeitamente resultar em glória.


Bernardo Freire
Outros críticos:
Nenhum autor votou nesta crítica.