Ao ver o filme e tomar as decisões pela personagem, perdemos a parte essencial de um filme: a visão do realizador.

Ao ver o filme e tomar as decisões pela personagem, perdemos a parte essencial de um filme: a visão do realizador.

2018
Drama, Mistério, Sci-Fi | 1h30min
de David Slade, com Fionn Whitehead, Will Poulter, Craig Parkinson e Alice Lowe


As duas primeiras temporadas de Black Mirror foram transmitidas na televisão britânica entre 2011 e 2013, tornando-se um enorme sucesso em terras de Sua Majestade, mas passando algo despercebida para o público além-fronteiras. Foi apenas na terceira e quarta temporadas, produzidas e distribuídas pela Netflix, com o orçamento muito maior e um alcance apenas oferecido pela plataforma de streaming, que a série finalmente ganhou finalmente o seu lugar ao Sol e tornou-se uma das séries mais antecipadas todos os anos.

Desta vez a Netflix, apostou nas ideias habituais a Black Mirror mas adaptou-a a um formato e conceito diferente, no mínimo, inovador. A ideia de uma história interativa não é nova, principalmente no mundo dos jogos, mas nunca antes adaptada a uma longa-metragem, portanto aí encontra-se a grande atração da nova produção da empresa. Basicamente o espetador é apresentado com duas opções em certos momentos e as suas escolhas irão influenciar a forma como a história se irá desenrolar, existindo vários fins possíveis dependendo destas mesmas decisões.

O enredo segue Stefan Butler, um programador obcecado com um livro-jogo chamado Bandersnatch, que consiste na mesma lógica de tomar as decisões pela personagem, resultando em múltiplos cursos narrativos diferentes. Quando Stefan se dirige a um estúdio de videojogos para pedir apoio para terminar e comercializar uma adaptação do livro para uma plataforma virtual, é apresentado com a primeira decisão que influencia substancialmente todo o desenrolar da história: ficar a trabalhar no estúdio diretamente com uma equipa de programadores, entre eles a grande estrela do mundo dos jogos da altura, Colin Ritman; ou então trabalhar a partir de casa com total independência artística. É só até que vos consigo levar, estão por vossa conta daqui em diante.

Vamos desde já esclarecer uma coisa e poupar o vosso tempo. O que interessa aqui não é propriamente as atuações, a cinematografia ou o som. Aquilo que vocês estão aqui a fazer é saber se este conceito funciona, estou errado? Não me parece. Portanto vamos a uma ronda rápida sobre estes três pontos e partimos para o que interessa. SIGA.


Performances: Bastante competentes, especialmente Poulter mostra a cada filme que está a evoluir a olhos vistos.
Cinematografia: Tem momentos interessantes mas não é brilhante, a exposição e saturação de algumas cenas está mal equilibrada.
Som: Em termos técnicos, a melhor parte do filme, cheio de noise e vibes psicadélicas, dando todo um ambiente tão retro ao filme como os jogos a que se refere.
Estamos despachados, não custou nada, pois não?

A Netflix arranjou neste conceito um produto fácil de vender, tal o nível de curiosidade que despertou o facto de o utilizador poder tomar as decisões que vêm a influenciar todo o enredo, agora se isto agrada a todos é que é a grande questão. A opinião do público em geral tem sido absolutamente extremista, dividem-se entre “AI MEU DEUS ISTO É GENIAL, OH MEU DEUS, OH MEU DEUS” e “QUE VALENTE BALDE DE LIXO”. Eu, para não variar, não tombei em nenhum destes grupos. Em vez disso, o que penso desta ideia de filme interativo é o seguinte: funciona aqui, mas a não repetir.  Porquê? Ao ver o filme e tomar as decisões pela personagem, tira toda uma parte essencial da experiência do ver um filme: a visão do realizador. Senão vejamos. A interatividade nos videojogos resulta na perfeição, porque toda a ideia do decision-making é dar ainda mais um elemento que o jogador tem no seu controlo para moldar a sua experiência.


Mas para mim, isto não é adaptável ao cinema. Eu não quero tomar as decisões, eu não quero escolher pela personagem. Eu quero ver a visão do realizador. Eu quero ver o que o realizador tem para me dizer sobre a pessoa que está no ecrã. Eu estou ali para ser um participador passivo, não ativo. Para experienciar, não participar.  No entanto, eu disse que aqui, neste caso muito específico, resultava, certo? Há um fator importantíssimo que fez esta ideia funcionar: a certa e determinada altura, as personagens começam a perceber que as suas decisões estão a ser influenciadas por uma entidade superior aka o espetador. Sem isto, não seria mais do que uma mera história que seria mais adequada a um jogo do que propriamente a um filme.


Ainda assim não resolve tudo, porque algumas das maneiras como o enredo se fecha não parecem de todo naturais, e muito embora possa ser essa mesma ideia, não é algo que tenha conseguido passar despercebido para mim. Tem ainda a agravante de depender um pouco da paciência do espectador, porque se este não estiver disposto a perder um pouco mais de tempo para experimentar as várias combinações e fins, perde-se praticamente toda a “piada da coisa”.

No fim, fica uma ideia interessante, executada o melhor que a complexidade do conceito o permite, mas espero sinceramente que não seja algo que vire moda e recriado vezes sem conta até a fadiga se instalar. Resultou aqui. Porreiro. Ótimo. Vamos avançar. Vamos voltar aos meus filmes simples, escolhidos e decididos pelos realizadores. Há algo de ternurento em poder sentar-me e ver um filme sem qualquer responsabilidade e preocupação. Excetuando se tiver algo para estudar. Aí vejo o filme preocupado. Mas vejo na mesma.


por Rafael Félix