Amélie apresenta um retrato inesquecível de uma mulher que demonstra um talento notável para a prática espiritual da bondade.

Amélie apresenta um retrato inesquecível de uma mulher que demonstra um talento notável para a prática espiritual da bondade.

2001
Comédia, Romance | 2h2min
de de Jean-Pierre Jeunet, com Audrey Tautou, Mathieu Kassovitz, Isabelle Nanty, Dominique Pinon, Jamel Debbouze e Yolande Moreau


Jean-Pierre Jeunet é especializado em filmes de invenção visual impressionantes, como Delicatessen (1991) e La Cité des Enfants Perdus (1995) que co-realizou com Marc Caro. Assim que se viu livre da imaginação mais negra de Caro e das restrições de Hollywood que enfrentou em Alien: Resurrection (1997), Jeunet também deixou de parte as obsessões com ferrugem e desordem grotesca, dando espaço à luz e criando um dos filmes mais bonitos e alegres de sempre: Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain.

Amélie Poulain (interpretada com ternura por Audrey Tautou), cresceu com falta de afecto. Em criança, além do trágico-cómico suicídio da sua mãe, o seu pai, médico, nunca lhe deu carinho – nem abraços, nem beijinhos – por isso o único contacto físico entre os dois era durante consultas médicas de rotina. Como consequência, o pequeno coração de Amélie batia mais depressa sempre que o seu pai aproximava o estetoscópio, sendo diagnosticada com um problema cardíaco. Assim, Amélie cresce sozinha e solitária.

Agora em adulta, trabalha num pequeno café em Paris e a sua vida é um tanto ou quanto monótona, até ao dia da morte da Princesa Diana. A notícia chocante tem um impacto na vida da nossa heroína, que ao estar incrédula a ver televisão deixa cair uma tampa no chão que vai a rebolar até bater na parede e soltar um esconderijo secreto, que contém uma velha caixa onde há muito tempo um rapaz guardou os seus tesouros de infância. Ao procurar e descobrir o homem que outrora fora esse rapaz, devolve-lhe anonimamente a sua caixa preciosa. Ao ver a reacção do homem Amélie descobre a sua vocação e a sua razão de viver: Amélie irá fazer as pessoas felizes.

Durante as suas peripécias, Amélie conhece Nino (Mathieu Kassovitz, realizador do espectacular La Haine 1995), que trabalha numa sex-shop e tem um hobby bastante peculiar: faz colagens com fotos que as pessoas rasgam e deitam fora, daquelas máquinas que tiram fotografias automáticas, os photomatons. Mas Amelie é demasiado tímida para falar com Nino e Nino nem sequer sabe da existência de Amelie.

Sans toi, les émotions d'aujourd'hui ne seraient que la peau morte des émotions d'autrefois.

Considero difícil fazer uma comédia light com uns toques de romance que seja simultaneamente charmosa e ágil, pois, o tom tem de ser o correcto e os actores têm de encarnar o charme em vez de simplesmente tentarem reproduzi-lo. Em Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain, tudo isso bate certo. Jeunet e o seu co-argumentista Guilaume Laurent, usam o realismo mágico para criar um mundo de amor não correspondido e ainda incluir peixes suicidas, intrigas de photo booths e esquemas elaborados de cortejos amorosos. Devem esperar o inesperado – é impossível saber o que irá acontecer de seguida – mas tenham a certeza: nunca vão sair desapontados.

A cinematografia, a cargo de Bruno Delbonnel, é brilhantemente inundada de cores pastel. Tudo é limpo, convidativo e quente, incluindo a excelente banda sonora de Yann Tiersen, que fornece temas dignos e merecedores para as aventuras de Amélie, encaixando na perfeição com o tom do filme. A cereja no topo do bolo é a localização escolhida para contar esta história inspiradora: Paris, a cidade do amor. Claro, que aqui Paris não está representada realisticamente. É suposto ser Paris nos dias de hoje, neste caso 1997, ano da morte da Princesa Diana, mas a cidade apresenta-se limpa, ordenada e segura – resultando na maior e mais marcada fantasia deste filme. Com a música de acordeão e piano de fundo, os cafés impecáveis e a tonalidade sépia que satura os planos, aqui vemos uma cidade demasiado perfeita. Mas não importa, o objectivo é sentirmo-nos bem e optimistas com este mundo, e isso acontece.

É um filme mágico, charmoso e encantador, há uma clara habilidade em criar um mundo de fantasia apelativo e é sem dúvida uma obra rica e imaginativa que nos prende logo com os créditos iniciais. Sinto uma satisfação imediata sempre que vejo este filme mas para quem não viu, não deixem que palavras como mágico e alegre vos levem a acreditar que Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain é banal e que trata de assuntos triviais, pois aborda temas fundamentais: amor, solidão, auto-confiança, insegurança e acima de tudo, a importância que a felicidade tem no ser humano.

Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain é criativamente enérgico e apresenta um retrato inesquecível de uma mulher que demonstra um talento notável para a prática espiritual da bondade. Amélie leva a felicidade aos que a rodeiam (e também para aqueles que estão fora do ecrã), sem segundas intenções e sem se preocupar com ela própria. O que é mais bonito que isso? Um dos meus filmes favoritos de todos os tempos.


por Sara Ló