Acaba por ser mais um thriller com elementos de terror do que um purista do género.

Acaba por ser mais um thriller com elementos de terror do que um purista do género.

2019
Terror
de Lee Cronin, com Seána Kerslake, James Quinn Markey, Kati Outinen e James Cosmo


Num mundo onde a ansiedade é crescente e os desafios parentais são cada vez mais complexos, filmes como A Quiet Place (2018) e Bird Box (2018) têm encontrado o seu lugar nos confins imaginativos do terror. Parece haver uma necessidade de alertar para a responsabilidade do encargo, mas fundamentalmente comentar a sua dificuldade. The Hole in the Ground é a nova adição a este movimento, piscando o olho a vários filmes do seu género, sem perder o horizonte da sua história.

Depois do sucesso da curta-metragem Ghost Train (2016), estava à espera que o próximo passo do realizador e argumentista Lee Cronin fosse uma adaptação da sua narrativa para uma longa-metragem. 

Em vez disso, opta por narrar um episódio da vida de Sarah (Seána Kerslake), que procura mudar de vida com o seu filho, Chris (James Quinn Markey), depois de ganhar a sua custódia total (a pobre sofria de violência doméstica). A sua felicidade é interrompida quando Chris desaparece uma noite, apenas para reaparecer são e salvo em sua casa sem um único arranhão. Mas como uma mãe dedicada conhece o seu filho, Sarah rapidamente repara que o seu comportamento está diferente, e que um grande buraco no chão pode estar relacionado com a mudança súbita.

O filme resulta porque a relação entre Chris e Sarah está bem explorada no argumento e é refletida com empenho pelos atores. O jovem James Markey, na sua primeira participação no grande ecrã, consegue uma performance convincente ao criar uma dualidade palpável na sua personagem. Os seus gestos tornam-se robóticos e a expressão facial sem qualquer emoção. Em resposta, Seána reage com progressiva preocupação e ansiedade, algo que é enfatizado por close up's que captam as reações nervosas da protagonista.

Neste sentido, The Hole in the Ground acaba por se destacar também por uma direção de fotografia refinada, cortesia de Tom Comerford. A escolha dos planos é agradável e a falta de saturação na imagem complementa os temas mais obscuros da narrativa. Além do mais, a composição musical de Stephen McKeon consegue tornar certas cenas mais apreensivas do que de facto são.

Acaba por ser mais um thriller com elementos de terror do que um purista do género. Os sustos são secundários à história, e bem, mas de forma a tornar a premissa mais fresca, a questão invocada pelo título podia ter mais preponderância no enredo. Assim, acabou por ficar na sombra de um excelente filme de terror que também tem uma dinâmica familiar disfuncional: a estreia da realizadora Jennifer Kent, The Bababook (2014).

Não descuidando, a primeira longa-metragem de Lee Cronin é engenhosa até certo ponto. Mesmo a tropeçar no terceiro ato, permanece uma história interessante sobre uma mulher a tentar proteger o seu filho do mundo exterior. Uma tarefa que se revela cada vez mais extenuante e imprevisível com o passar dos tempos.


por Bernardo Freire