É a segunda obra-prima seguida de Pawlikoswki, desta vez mais dinâmica e grandiosa.

É a segunda obra-prima seguida de Pawlikoswki, desta vez mais dinâmica e grandiosa.

2018
Drama, Música, Romance | 1h28min
de Pawel Pawlikowski, de Joanna Kulig, Tomasz Kot, Borys Szyc e Agata Kulesza


Em 2015 o cineasta e argumentista Pawel Pawlikoswki  conseguiu a proeza de levar o filme Ida (2013) a ganhar o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro pela Polónia. Quatro anos depois, volta a maravilhar com o filme Cold War, uma história de amor conturbada em tempos não menos sossegados. A fórmula de sucesso mantém-se: fotografia a preto e branco no formato clássico 4:3, com a narrativa marcada por traumas da Guerra Fria.

Polónia, 1949. O músico Wiktor (Tomasz Kot) e a sua equipa atravessam a paisagem gelada num camião para gravar música folclórica, onde quer que a encontrem. O objetivo é não só preservar a música popular polaca sobre o domínio da União Soviética, como também reunir jovens talentosos para que possam apresentar a sua cultura e tradição em palco.

Dentro dos diversos candidatos no casting, uma cantora loira chamada Zula (Joanna Kulig) capta a especial atenção de Wiktor. Ambiciosa e deveras atraente, o único senão são os rumores de que tenha morto o seu pai: "ele confundiu-me com a minha mãe e eu mostrei-lhe a diferença com uma faca". O músico não resiste aos seus encantos e ambos começam um romance turbulento que vagueia de década em década ao sabor de separações e reencontros apaixonados.

É uma aventura tão fraturada como a própria Europa da época. À medida que passamos por Berlim, Paris e até pela antiga Jugoslávia, a sua relação parece condenada não só pelas suas decisões como pelas circunstâncias políticas. Dores amorosas que inesperadamente recordam filmes como Casablanca (1942) ou até mesmo La La Land (2016). Neste caso, a vida em exílio e as suas barreiras são o objeto de análise do cineasta, inspirado pela relação complicada dos seus pais.

Acaba por ser uma história pessoal contada de forma épica. Tem inclusive o caráter episódico de uma lembrança, conforme as cenas avançam e somos convidados a depreender o que foi omitido. Ficamos apenas com a substância da narrativa, aquilo que interessa ver, comprimido nuns económicos 88 minutos de filme.

E que filme. A proeza das composições do diretor de fotografia Lukasz Zal é de tirar o fôlego, a música evolui de folclore atormentado para jazz relaxante, passando pelos primórdios do rock & roll. O seu papel na história é surpreendentemente importante, evoluindo como se tivesse o seu próprio subenredo, interligado com o estado de espírito das personagens.

Falando em interpretações, os atores conseguem transmitir largos traços de personalidade a partir dos mais ínfimos detalhes. Não precisamos de muito para acreditar no amor de Zula e Wiktor, há intensidade por detrás de cada olhar e energia por detrás de cada ação. Vê-los no ecrã é verdadeiramente apaixonante.

Caso para dizer que o único defeito deste filme é ser curto de mais, mas apenas porque queria saber o que reserva o futuro das personagens. É a segunda obra-prima seguida de Pawlikoswki, desta vez mais dinâmica e grandiosa. Uma produção polaca irresistível de um autor em pleno controlo da sua arte.


por Bernardo Freire