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Variações(2019)

Há 27 dias | Biografia, Drama, Música, | 1h38min

de João Maia, Com Sérgio Praia, Filipe Duarte, Victoria Guerra, José Raposo e Augusto Madeira


Todos conhecemos António Variações, natural do concelho de Amares (curiosamente é a região na qual habito), consagrou-se como um nome ilustre da música portuguesa, um eterno sonhador com uma mentalidade para além do seu tempo e que infelizmente sofreu uma morte precoce devido ao vírus da Sida.

 

Apesar de não me considerar um fã devoto dos seus trabalhos, sentia-me ansioso por este filme. Primeiramente porque participei como figurante numa das cenas e também porque aprecio algumas das suas músicas, há uma inclusive que poderia constar na playlist das músicas da minha vida. Só que parte da minha admiração provém essencialmente pelo seu estilo particular e pela sua personalidade excêntrica, na qual demonstra não sentir medo de opiniões alheias.

 

Mas pronto, vamos diretos ao assunto, será que esta obra realizada e escrita por João Maia faz jus à história de vida do cantor?

 

A resposta é sim, sem dúvida. Só que tinha espaço para ir mais além.

 

Como qualquer outra biopic musical, este trabalho tenta retratar o confronto pessoal e profissional do cantor para concretizar o seu sonho, num espaço temporal que inicia desde a sua infância e termina nos seus últimos momentos de vida. O argumento reproduz explicitamente toda essa paixão e ambição com eficiência, todavia não nos entrega nada que nos surpreenda. Durante os seus 110 minutos de duração somos confrontados com elementos biográficos que todos conhecemos, não se assumindo respetivamente como algo novo ou surpreendente.

 

Posso afirmar que terminei a exibição sabendo praticamente o mesmo sobre este artista que já sabia previamente. Geralmente as biopics objetivam a projeção de detalhes pessoais e desconhecidos sobre um determinado artista, foi isso que ocorreu com Bohemian Rhapsody (2018) e Rocketman (2019). Ambos os exemplos nos fornecem um leque de profundas informações sobre a vida pessoal dos respetivos músicos, desde relações pessoais, medos, desejos, vícios e dilemas. Algo que Variações possui medo de entregar.

 

Infelizmente, esta longa-metragem vive muito de uma visão superficial sobre a vida do cantor. Somos entregues a uma sequência de cenas que narram a luta pelo seu grande sonho e por entre as mesmas conhecemos um pouco das suas relações amorosas e familiares, mas nada de profundo ou de novo. É este o calcanhar de Aquiles da obra e a acima de tudo a sua maior limitação.

 

Tais insuficiências são disfarçadas pela dedicação de Sérgio Praia (Gabriel – 2018), para além de uma semelhança física assustadora com o cantor, a sua magnífica interpretação fornece maior interesse à narrativa, fazendo-nos crer que estamos realmente diante o António e não perante o Sérgio. Tenho a certeza que todo este trabalho será reconhecido nas mais distintas premiações.

 

Quanto ao restante elenco, Victoria Guerra (RPG – 2013) e Filipe Duarte (Cinzento e Negro – 2015) possuem um bom desempenho ao darem a pele a personagens interessantes que tentam escapar dos entraves narrativos; José Raposo (Linhas de Sangue - 2018) “rouba a cena” numa divertida participação especial. Por sua vez, os restantes membros variam entre o bom e o terrível.

 

Num panorama técnico, está soberbo. Atrevo-me a assegurar que neste campo é um dos melhores filmes portugueses de todos os tempos (senão o melhor). Os cenários, a maquilhagem e o guarda-roupa lançam-nos para uma viagem imersiva até uma encantadora Lisboa da década de 70 e de 80, e do mesmo modo enalteço a belíssima cinematografia, tal como a edição de som. Pessoalmente, só mudaria a sonoridade de algumas músicas para existir uma maior semelhança perante as versões originais, mas isto é estritamente uma particularidade da minha apreciação pessoal.

 

Um delírio sonoro e visual, Variações é digno de ser considerado como um dos melhores títulos nacionais deste século. Só tenho pena que esse reconhecimento provenha do trabalho técnico e da paixão de todos os intervenientes na execução deste grandioso projeto. Pois, o argumento, apesar de ser bom e de não nos cansar, tem medo de tocar com o dedo na ferida de diversos assuntos tabu, como de aprofundar vários detalhes pessoais.

 

Não é perfeito, mas é a obra essencial para provar ao mundo que Portugal também consegue produzir bom cinema. Apenas necessitamos de dedicação e de paixão, tal como todos os envolvidos neste filme demonstraram.

Perde por ter medo de ir além, algo que António Variações não teve.


Pedro Quintão
Outros críticos:
 Alexandre Costa:   5
 Bernardo Freire:   5
 Rafael Félix:   5