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The Irishman(2019)

Há 2 meses | Biografia, Crime, Drama, | 3h29min

de Martin Scorsese, com Robert De Niro, Al Pacino, Joe Pesci, Anna Paquin, Jesse Plemons, Stephen Graham e Harvey Keitel


10 anos. Foi o tempo que Martin Scorsese levou para trazer o seu filme para a tela. Sendo que não havia nenhuma produtora que o quisesse financiar/distribuir, o realizador teve de recorrer a um novo recurso: a Netflix. A plataforma de streaming financiou a íntegra da longa-metragem com um gigantesco budget de $160M e deu luz verde ao pequeno cineasta mais mafioso da Sétima Arte. Conclusão: as filmagens decorreram em 117 locais diferentes, contendo 309 cenas. Pois.

O que nos conta o filme?

Frank Sheeran (Robert De Niro), um antigo soldado da Segunda Guerra Mundial narra o seu ponto de vista do crime organizado dos Estados Unidos pós-guerra. Frank conta como se tornou um hitman e como trabalhou ao longo dos anos ao lado de grandes figuras do século passado. O filme aborda várias décadas de História, entre as quais a vida do líder sindical Jimmy Hoffa (Al Pacino). Frank mergulha-nos em puros mistérios da máfia, da corrupção e do mundo político.

Baseado no livro de Charles Brandt - I Heard You Paint Houses, esta incrível narrativa começa com um plano-sequência num lar, onde se encontra um Frank Sheeran velhote, numa cadeira de rodas e enfraquecido. É através do olhar deste homem que vamos ser enviados para este épico fresco de 3h30. Scorsese conseguiu, perfeitamente, utilizar as 3 linhas temporais, com flashbacks dentro de flashbacks, sem nunca nos perdermos pelo caminho. Diria que só desgostei do CGI no De Niro jovem, especificamente no que toca ao seu olhar – mas em nada sobrepôs a qualidade do visionamento. Foi uma mera questão de hábito. Muito se deve à sua realização que, por estranho que pareça, não tem nada a ver com os seus precedentes nesta temática de gangsters. Estamos longe de Mean Streets (1973), Goodfellas (1990) e Casino (1995). Muito longe. O ritmo é lento, há momentos mortos propositados e tudo leva o seu tempo para o final ser mais doloroso.

Joe Pesci é fenomenal. Longe daquilo que nos habituou em Raging Bull (1980), Goodfellas e Casino, aqui interpreta a total oposição dos seus precedentes actings. Temos um Russel Bufalino calmo, ponderado e extremamente carismático. Al Pacino transborda de paixão e de vitalidade – é incrível que seja a sua primeira colaboração com Scorsese, que mais uma vez reforça que o ciclo está fechado. O seu Jimmy Hoffa é grandioso. É daí que temos os vários pontos de comédia do filme. A sua amizade com Frank é de um realismo sincero. Temos depois Robert De Niro a voltar ao seu melhor nível. Exit as comédias duvidosas destes últimos anos. De Niro é fantástico. Sentimos o confronto interno no seu olhar, na forma de não alinhar uma palavra sem gaguejar e na fragilidade que nos é mostrada no final. Estes três senhores merecem um Oscar.

Este filme funciona como o testamento de Scorsese perante o seu cinema de eleição: o New Hollywood. O grupo de amigos: Scorsese, Spielberg, Lucas, De Palma e Coppola marcou o cinema com uma força extrema e Scorsese faz uma homenagem a estes génios que tanto contribuíram. The Irishman mostra algo como o fim dessa era genial. É uma carta de amor para os seus atores, para a sua equipa e para todos os cinéfilos que cresceram com estas obras. É por isso que derramei litros de água no seu final. A última frase, da última cena, vem dizer um adeus para sempre ao cinema que eu amo. É só quando aparece nos créditos: “Directed by Martin Scorsese” que tomei consciência do quão isto foi uma verdadeira experiência e que tudo é mais forte do que a mera ficção.

O que dizer mais? Se forem fãs do cinema de Martin Scorsese irão amar The Irishman. Arrependimentos e sentimentos de culpa são aquilo que Scorsese demonstra no final. A melancolia de realizar um filme, a passagem do tempo e de estar mais perto do fim do que o início foi destruidor para o meu pequeno coração. The Irishman é uma obra-prima que marcará a nossa geração e que será estudada por gerações futuras. Vou ter saudades disto.


Alexandre Costa
Outros críticos:
 Pedro Horta:   9
 Raquel Lopes:   9
 Bernardo Freire:   10
 Rafael Félix:   10