A longa propõe um choque de culturas, onde a moralidade não é a questão central.

A longa propõe um choque de culturas, onde a moralidade não é a questão central.

2015
Drama, História | 2h36min
de Alejandro G. Iñárritu, com Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson, Will Poulter, Lukas Haas e Forest Goodluck


Adaptado do romance de Michael Punke, The Revenant é baseado na história verídica de Hugh Glass em 1823. Provavelmente ouviram falar do filme com o Óscar de Leonardo DiCaprio em 2016.

O que nos conta o filme?

Numa América selvagem, o caçador Hugh Glass (Leonardo Dicaprio) é atacado violentamente por um urso, ficando extrememente ferido. Um membro da tribo de Glass, John Fitzgerald (Tom Hardy) trai o coronel (Domhnall Gleeson), enterrando Glass vivo e deixando-o como morto. Com a sua força de vontade, e único desejo, Glass deverá enfrentar num ambiente hostil, um inverno tremendo e tribos guerreiras, uma luta inexorável pela sobrevivência, impulsionada por um intenso desejo de vingança.

Depois de ter realizado Birdman (2015), um filme inovador que lhe valeu o Óscar de Melhor Filme e Realizador, Iñárritu, apresenta-se com um novo desafio, The Revenant. O realizador mexicano, tem tudo para brilhar, a começar pelo seu sólido elenco. Dicaprio vs Hardy.

O filme é uma experiência visceral. Uma jornada difícil, composta pelo frio e pela morte. Tanto é difícil de se ver, como, por outro lado, é espetacular. É uma aventura que me deixou um sorriso nos lábios, mais que uma vez. Um filme que ousa misturar contemplação e selvageria, close-ups dos personagens (especialmente DiCaprio) e extensos planos gerais compostos de neve. Filmado no Canadá e na Argentina, consegue tornar-se fascinante só pela sua beleza visual. O filme é produzido de uma maneira particular, apenas filmado com luz natural do dia. O que limitou a duração dos dias de rodagem.  9 meses de rodagem entre 1h e 2h de luz natural por dia. Imaginem o trabalho detrás da obra. A obsessão de Iñárritu valeu a pena. Posso compará-la com a de Kubrick, que filmava tudo à luz das velas no seu Barry Lyndon (1975). Depois de Birdman, Iñárritu volta a trabalhar com o diretor de fotografia Emmanuel Lubezki, impondo a sua marca no cinema contemporâneo. Enquanto audiência, senti-me frequentemente atingido pelo sublime das imagens.  

A fotografia é o maior ponto positivo da obra. Ganha uma ressonância incrível. Os planos com pouca distância de foco entre os atores e a objetiva trazem-nos uma maior imersão. Evocou-me o trabalho de Michael Mann no filme Ali (2001). A abertura do filme é exemplo disso. A câmara movimenta-se com uma precisão devastadora. O plano sequência de abertura é pensado em cada segundo. Não se trata apenas de filmar um plano sequência com elegância, trata-se de filmar ações rápidas e impactantes em 360º, sempre junto às personagens.



A longa propõe um choque de culturas, onde a moralidade não é a questão central.  A violência de cada tribo não tem nada a invejar à dos seus oponentes, qualquer que seja a diferença de linguagem.  A humilhação de um povo desapossado das suas terras e reduzido a negociar com um banco para poderem escapar do genocídio.

Como podem imaginar, DiCaprio é mais uma vez magistral. Apesar de ter poucos diálogos, ele impressiona com a sua performance. O seu olhar transmite tanto. Poderoso e comovente, consigo agarrar-me às suas motivações ao longo do filme.  Valeu-lhe o Óscar (bem-merecido). Por outro lado, a verdadeira surpresa vem do  lado de Tom Hardy. Um ator que continua o seu caminho no topo do cinema. Carismático e violento (aparece quase tanto como o protagonista) tem cenas monstruosas de violência. Domhnall Gleeson também é bom no seu papel, assim como Will Poulter.

Onde o filme pode desagradar alguns de vós é certamente no seu ritmo. Iñárritu apresenta uma história lenta (mas interessante). Fez um trabalho contemplativo e com pouco ritmo. Um estilo que geralmente divide.

Se forem apaixonados pelo cinema, este filme é ideal. Tecnicamente é incrível: a luta com o urso, a fotografia através da luz natural, a realização inovadora e a performance dos atores. As vericidades das cenas também são marcantes: DiCaprio que come fígado de búfalo cru, ou que dorme no interior de um cavalo nu.

O meu ponto negativo encontra-se no CGI dos animais, búfalos, lobos, porcos. Não me soou bem, no meio de uma fotografia magnífica.

Com The Revenant, Iñárritu leva pelo segundo ano consecutivo, o Óscar de Melhor Realizador. O filme no total, levou 3 estatuetas.

Um Western Survival, um desejo de vingança, uma obra forte e emocionante, é um excelente momento de cinema. Recomendo verem num bom ecrã, se ainda não tiveram essa oportunidade.


por Alexandre Costa