A Disney e Jon Favreau fizeram um belíssimo trabalho em contornar os dois aspetos do filme que o poderiam ter levado ao fracasso.

A Disney e Jon Favreau fizeram um belíssimo trabalho em contornar os dois aspetos do filme que o poderiam ter levado ao fracasso.

2016
Aventura, Drama, Família | 1h46min
de Jon Favreau, com Neel Sethi, Bill Murray, Ben Kingsley, Idris Elba, Scarlett Johansson, Christopher Walken e Giancarlo Esposito

Mogli. Ao ouvir este nome do que se lembra? Exato. De toda a história de um bebé que é abandonado na floresta, que é acolhido pelos lobos e por Bagheera – ou Baguera, no português em geral –, bem como do seu arqui-inimigo Shere Khan.

A Disney, com a realização de Jon Favreau, traz até nós uma remasterização da famosa animação The Jungle Book – Livro da Selva, em português – de 1967 baseado no livro de Rudyard Kipling, com o mesmo nome.

E digo remasterização porque não foge muito disso. Aliás, está muito mais próximo de ser catalogada dessa maneira do que propriamente como um novo filme.

O filme em si, não traz grandes novidades na argumentação e isso é um contratempo para esta produção da Disney. Precisamente porque a esmagadora maioria de quem vê esta longa-metragem não se irá surpreender com quaisquer aspetos vindos da narrativa.

Outro contratempo que seria, realmente, de esperar é o facto de todo o filme ser digital com a única exceção da personagem Mogli que é interpretada pelo jovem estreante Neel Sethi. Viu as prequelas de Star Wars de George Lucas? Então sabe do que estou a falar. É um belíssimo exemplo de projetos inteiramente digitais que falharam redondamente.

Felizmente, não foi esse o caso em The Jungle Book!

Para um filme que é gravado na sua total integridade dentro de um estúdio, a floresta e todas as paisagens estão imensamente apelativas e com uma qualidade constante ao longo de todos os 105 minutos de duração.

As personagens estão muitíssimo bem definidas, as suas vozes não só estão perfeitamente sincronizadas com a animação, como a escolha dos atores para dar vida às mesmas é exímia.

Estamos a falar de um elenco composto por Bill Murray (Baloo), Ben Kingsley (Bagheera), Idris Elba (Shere Khan), Scarlett Johansson (Kaa), Christopher Walken (Louis) e Giancarlo Esposito (Akela) – o famoso dono de Los Pollos na série Breaking Bad. Portanto, não estamos a falar de um elenco qualquer, estamos a falar de um elenco com nomes capazes de elevar qualquer filme. E foi precisamente isso que fizeram.

Bill Murray fez um papel extraordinário na voz de Baloo! Os fãs ficariam muito desapontados se este protagonista não tivesse os seus dotes humorísticos e descontraídos. Baloo, nesta versão, torna-se fenomenal a partir da primeira vez que fala, magnífico!

Mas como tudo na vida, nada é perfeito…


Não tirando qualquer mérito a Scarlett Johansson – porque de facto esteve brilhante no tempo que atuou –, fico desiludido na mais sincera das maneiras com o curto – se não curtíssimo – tempo que Kaa tem neste filme. Kaa é daquelas personagens que dá toda uma vida ao enredo tanto no livro como na animação original do filme e aqui aparece simplesmente para servir de elo de ligação para que Mogli e Baloo se conheçam. Fiquei bastante desiludido com este aspeto até porque não nos foi permitido testemunhar todos os momentos que Kaa e Shere Khan trocam na animação conhecida da Disney.

E, por falar em Shere Khan, não só está muito bem entregue a Idris Elba como está muito bem desenhado. No entanto, a personagem poderia ter dado mais do que deu. Shere Khan, após matar Akela para assumir a liderança da matilha, limita-se a ficar no rochedo à espera de Mogli. Mais uma vez, não nos foi permitido testemunhar muitos dos seus momentos na narrativa original. Mas admito – e confesso que retira algum peso a estas críticas – que em todos os momentos que Shere Khan aparece, simplesmente arrasa.

Outro aspeto que não gostei foi a ausência dos abutres na história e, sobretudo, do momento musical que proporcionam no original. Eles de facto aparecem, mas nunca interagem com o enredo.

Apesar destes aspetos negativos, tenho de dizer que Neel Sethi fez um papel muito bom para um jovem rapaz de 12 anos que gravou todo o filme sem nunca interagir com nenhuma daquelas personagens. E, claro, é obrigatório falar que Bagheera esteve muito bem no filme, proporcionando belos momentos de proteção bem como de sacrifício.

Em suma, acho que a Disney e Jon Favreau fizeram um belíssimo trabalho em contornar os dois aspetos do filme que o poderiam ter levado ao fracasso: narrativa sem alterações e um filme todo ele digital.

Não desapontou e torna-se assim uma das melhores remasterizações de um filme das nossas infâncias.


por Pedro Horta