A descoberta da violência por parte da protagonista, é uma metáfora para a sua autodescoberta sexual e consequentemente para a definição da sua identidade.

A descoberta da violência por parte da protagonista, é uma metáfora para a sua autodescoberta sexual e consequentemente para a definição da sua identidade.

1996
Horror, Mistério, Thriller | 2h5min
de Alejandro Amenábar, com Ana Torrent, Fele Martínez, Eduardo Noriega e Xabier Elorriaga


Me llamo Ángela. Me van a matar” é uma frase sem qualquer sentido para a maioria do grande público, são poucos os consumidores de cinema que a conhecem – entretanto assume-se como um marco para uma parte dos amantes de cinema espanhol. Lançado em 1996, Tesis, afirmou-se como a primeira longa-metragem realizada por Alejandro Amenábar, que mais tarde se destacou pelo thriller mind fuck Abre Los Ojos (1997), pelo clássico de terror The Others (2001) e pelo aclamado Mar Adentro (2004). Nessa época, Amenábar ainda era somente um estudante de cinema, desconhecido pelo público, pela crítica especializada e pelos media. Porém, foi com a sua primeira obra que decidiu enviar uma carta de amor à Sétima Arte, mostrar a sua paixão por esta e homenagear todos os estudantes de cinema.

 

A história principal é bem simples e direta, dá-nos a conhecer Ángela (Ana Torrent), uma estudante que nutre uma certa curiosidade pela violência, sendo a exposição desta nos conteúdos audiovisuais, o principal foco de investigação da sua tese de mestrado. Necessitando de avaliar obras visuais que se destaquem pela apresentação de conteúdos violentos, a nossa protagonista encontra uma misteriosa cassete de vídeo, tão chocante e grotesca que pode ter sido capaz de ter morto a última pessoa que a viu. A sua curiosidade perante esta fita leva-a a juntar-se a Chema (Fele Martínez), um aficionado por filmes violentos e pornografia bizarra. Juntos descobrem que estão perante um snuff movie – vídeo que apresenta uma morte real – no entanto, a revelação mais chocante, consiste no facto da vítima ser uma ex-estudante da sua universidade. Juntos decidem investigar a génese daquela cassete e descobrir quem a filmou.

 

Considero esta obra, como um thriller com elementos de terror. O seu argumento sustenta-se no mistério, na relação entre as personagens, nos seus gostos, rotinas e desejos. A descoberta da violência por parte da protagonista, é uma metáfora para a sua autodescoberta sexual e consequentemente para a definição da sua identidade. Observa-se um esforço por parte de Alejandro Amenábar e Mateo Gil em humanizarem as personagens, estas são totalmente realistas, criam uma conexão com o espectador e acima de tudo, conseguem despoletar a nossa preocupação nas cenas de suspense. Quanto à tensão provocada em diversas cenas, tudo está bem idealizado, o mistério prende-nos ao ecrã até ao último segundo e existe uma cena, que envolve um túnel escuro, considerando-a como uma das mais intensas na história do cinema. Existem inúmeros plot twists, o enredo muda quando pensamos que os protagonistas estão a alcançar um novo passo na sua investigação, contudo, em determinadas alturas, o argumento torna dois ou três conceitos ligeiramente irrealistas para alongar a trama e enviá-la por novos caminhos. Não considero esta técnica como algo totalmente negativo, porque acaba por consistir na única solução para manter o interesse e dar continuidade à história.

 

A fotografia de Hans Burmann aposta em tons frios e mornos, sem se tornar demasiado vibrante. Não sei se é algo idealizado ou se posso assumir como uma limitação técnica, mas também adorei o trabalho que conseguiram produzir com as sombras nos locais escuros, forneceu uma camada mais negra, misteriosa e pesada à obra. A edição colabora com a qualidade do argumento, esta ajuda cada cena a tornar-se mais interessante e assume-se como um dos fatores que nos influenciam a prender os olhos ao ecrã. A banda sonora, da responsabilidade do próprio realizador, acaba por se designar como o único ponto fraco de toda a obra, consegue distinguir-se pela sua assertividade em determinados momentos, já noutros assemelha-se ao que podíamos observar em telenovelas ou telefilmes dos anos ‘90.

 

Para mim, define-se como um clássico, um dos meus filmes preferidos, mas considero-me suspeito porque aprecio thrillers com uma enorme carga de mistério. Entendo que nem todos os espectadores atuais possam concordar devido a algumas limitações técnicas, que eram extremamente vulgares naquela época. Na minha visão, é ingrato exigirmos que um clássico mantenha os mesmos padrões técnicos que os filmes atuais do mesmo género, não podemos ver pela primeira vez o The Exorcist (1973) e exigir que tenha os mesmos efeitos de maquilhagem que a maioria dos bons filmes de terror sobrenatural atuais, ver o Texas Chainsaw Massacre (1974) e desejar que seja tão estilizado como qualquer slasher desta década, ou até mesmo, pedir que os pesadelos de A Nightmare on Elm Street (1984) sejam produzidos com os últimos avanços da tecnologia CGI. É necessário tomarmos sempre em atenção, os fatores culturais, sociais e históricos que se ocultam por detrás da produção de uma longa-metragem.

 

Tesis é soberbo, arrecadou inúmeros prémios, incendiou debates, mas o mais importante é o facto de se revelar uma obra que se assumiu como a concretização do sonho de um jovem cinéfilo. O primeiro filme que todos os aspirantes à realização de cinema, como eu, gostariam de realizar e nada me dá mais esperança do que ver alguém a realizar os seus sonhos, principalmente num período em que não existiam as novas tecnológicas para colaborarem na difusão dos nossos trabalhos.


por Pedro Quintão