A ambiência do filme é extremamente sufocante e pesada. Raros são os momentos de comédia e de paz.

A ambiência do filme é extremamente sufocante e pesada. Raros são os momentos de comédia e de paz.

2010
Fantasia, Aventura | 2h26min
de David Yates, com Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Ralph Fiennes, Alan Rickman, Helena Bonham Carter e Tom Felton


Um ano e meio após o lançamento de Harry Potter and the Half-Blood Prince (2009), a saga mágica criada por J.K. Rowling mundialmente conhecida está prestes a terminar com a primeira parte do seu último filme – Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 1.

O que nos conta o filme?

O poder de Voldemort (Ralph Fiennes) expande-se cada vez mais, assumindo o controlo do mundo mágico, dos quais o Ministério da Magia e Hogwarts. Harry (Daniel Radcliffe), Ron (Rupert Grint) e Hermione (Emma Watson) decidem progredir e terminar o trabalho iniciado por Dumbledore (Michael Gambon) - encontrar as últimas Horcruxes para derrotar o Lord das Trevas. A esperança é deveras pouca para os três amigos, que serão perseguidos pelo país inteiro. Não há outra maneira de derrotar o mal, têm de conseguir a missão a todo custo.

Dividir o último livro da saga, foi sem dúvida, a melhor decisão da produção. Era essencial a primeira parte ser o mais fiel possível ao romance - assim como ter uma longa batalha final para a segunda e última que saiu no ano seguinte.

O primeiro ponto positivo da longa é o seu argumento. É um dos melhores escritos de toda a saga. Mais lento, pausado e detalhado, impõe uma verdadeira tensão dramática, deixando a fantasia que era encontrada nas adaptações anteriores. A história é sobretudo focada no desenvolvimento de relacionamentos entre os três personagens principais que tentam lutar contra o mal. Voldemort está oficialmente pronto para a guerra e os nossos heróis não.

A realização de Yates atinge o auge. Não existe mais a escuridão dos corredores de Hogwarts - pois, pela primeira vez na saga, a famosa escola não aparece no filme. Temos cenários novatos. Vemos uma cidade de Londres que nos faz sufocar de tensão, belos e longos planos desérticos que simbolizam o vazio e que ampliam, mais ainda, a solidão dos protagonistas. Muitas vezes, as personagens são filmadas de longe, diminuindo o seu foco no plano. O plano domina as personagens – achei bem jogado do realizador.

A ambiência do filme é extremamente sufocante e pesada. Raros são os momentos de comédia e de paz. A ambiência melancólica é trabalhada na perfeição – como a cena de dança, entre Harry e Hermione e a contemplação de Harry perante o seu primeiro quarto, debaixo das escadas. Yates consegue criar uma atmosfera à beira do horror em certas passagens – Godric’s Hollow ou na casa dos Malfoy, e, de tensão para outras: a famosa perseguição na floresta.

Assim que o filme entra no coração do sujeito com os seus três heróis forçados a partir e fugir pelo país, é-nos impossível desconectar até ao final. Várias são as cenas marcantes desta longa-metragem: uma infiltração repleta de surpresas no Ministério da magia, uma perseguição agressiva numa floresta, uma cena de horror numa casa em Godric’s Hollow e uma linda sequência cativante de animação em 3D totalmente inédita na saga, que parece vinda dos filmes de Guillermo del Toro, que tem por tema os famosos Deathly Hallows (Talismãs da Morte).

Os atores já não são crianças, e nada tem a provar a audiência. Emma Watson ilumina o filme com a sua coragem, Rupert Grint tem a sua melhor performance da saga, incorpora um verdadeiro Ron que é comovente e engraçado. Daniel Radcliffe consegue transmitir a solidão de Harry da melhor das maneiras.

A banda sonora é desta vez composta por Alexandre Desplat – conhecido por trabalhar com Wes Anderson, como em Fantastic Mr. Fox (2009) Grand Budapest Hotel (2014) e Isle of Dogs (2018) ou ainda no recente The Shape of Water (2017) de Guillermo del Toro. Desplat percebeu o universo da melhor das maneiras de Harry Potter e onde David Yates queria chegar. Não há temas memoráveis, mas sim, belíssimos e comoventes, como na cena com o Dobby…

A primeira parte do último filme prepara-nos brilhantemente para a segunda parte e grande final. Faz-nos passar por vários momentos emocionais: tensão, melancolia, remorsos, solidão e essencialmente uma grande tristeza. É um dos melhores filmes da saga que nos prepara lentamente para dizer adeus ao mundo de Harry Potter.


por Alexandre Costa